quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Petrobrás (14 de abril de 1959)

Se a Petrobrás não fôra aquilo que chamamos uma emprêsa estatal, por certo o índice dos lucros que apresenta, teria sido classificado como extraordinário e talvez como absurdo.

A aludida emprêsa, conforme divulgações da imprensa de São Paulo e Rio de Janeiro, apresentou, em 1958, um lucro líquido de Cr$ 5.571.000.000,00!

Óra, pensando nisso, apelando antes de pensar nisso, para aquilo que se chama patriotismo verde-amarelo, não é o caso de perguntar-se se foi mesmo para esse fim (dar lucros?) que a Petrobrás foi criada?

A Venezuela nos deu em exemplo frizante e conseguiu transformar radicalmente a vida econômica de seu povo, mercê dos sábios processos com que explora o seu petróleo.

Conosco, a questão é diversa. Estamos com os olhos fechados, porque algumas pessoas que se dizem nacionalistas e nada mais são do que pseudo-nacionalistas, fazem questão cerrada em não ver a realidade dos fatos. Aqueles que esperam ou desejam que a Petrobrás apresente menos lucro e produza mais petróleo, correm o risco de serem chamados de entreguistas e até de traidores da Pátria. No caso, então, o certo é dobrar as espinhas e dizer amém, mesmo embora, tenhamos em nós o pensamento, de que a Petrobrás, se preenchesse de fato não de direito as suas verdadeiras finalidades, conforme entendemos, não deveria apresentar um centavo de lucro, enquanto faltasse nos motores dos variados tipos de veículos, um litro de gasolina nacional.

A Petrobrás tornou-se uma emprêsa estupendamente confortável, sólida, prática e cômoda. Até o capital social foi conseguido de particulares, em sua grande maioria, compulsoriamente, dentro de operações escudadas por lei. Em situação privilegiada, compra e vende pelo preço que mais lhe convém, embora tenha meios de maior produção, produção que não se consuma, que não alcança cifra capaz de solver, pelo menos a metade dos gastos de petróleo da nação. Mas a Petrobrás dá lucro e isso é o que desejam alguns nacionalistas, que, como dissemos, não podem passar da condição de pseudo-nacionalista. Pelo menos, para o entender de muitos outros patrícios.

O advertir, criticar ou mesmo comentar, por levemente que seja, a situação desses lucros enormes e produção aquém do normal, é um assunto sério. O crítico póde correr o risco de ser tachado de mau brasileiro, de entreguista, de traidor, de outros tantos adjetivos pejorativos, quando, na verdade, a situação é bem inversa.

A Petrobrás, de acordo com os próprios dispositivos de sua constituição, foi criada para obter lucros extraordinários. O petróleo, em produção abundante e exigida pelo consumo nacional, é urgente e indiscutível, de interesse de toda u’a nação; os lucros extraordinários, não interessando a toda a Pátria, encontram-se com os interesses de meia dúzia de nacionalistas de um timbre algo ôco.

Será erro, o desejar-se que a Petrobrás produza um pouquinho mais de petróleo, embora diminua um pouquinho essa estrastoférica margem de lucros que vem apresentando?

Se isto for erro, nós estamos errados, profundamente errados. O que nos consola, é que milhares de brasileiros (não pseudo-nacionalistas) assim entendem também.

Vamos acabar com muitas balelas que existem por aí, como “o petróleo é nosso” e outras tantas baboseiras, que só servem para confundir, alimentar um falso patriotismo, fechar os olhos a realidade, pedindo aos responsáveis por êsse estado de coisas, que deixem de calcular as cifras de lucros e pensem um pouquinho mais no Brasil e nos brasileiros, colocando a Petrobrás dentro de suas verdadeiras finalidades patrióticas e nacionais.

Extraído do Correio de Marília de 14 de abril de 1959

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