sábado, 22 de maio de 2010

A “Moda Saco” (22 de maio de 1958)

Principiou já a surgir a espontaneidade de opiniões dos entendidos (ou pretensos entendidos), acêrca do “new look” feminino, importado e originário de algum cérebro metido à besta, convencionalmente chamado de “móda saco”.

Uns são visceralmente contrários, outros francamente favoráveis, outros apaticamente neutros (não é redundância, não), com relação a êsse exagero de “simplicidade complicada” que se tachou de “móda saco”. Em verdade, semelhança não lhe falta.

Verdade tambem, é que a gente não está acostumada a ver éssas coisas e parece que não vai ser muito fácil os olhos e os gostos aceitarem de bom grado “isso”, que, sem sombra de dúvida, representa uma aberração, uma estupidez, um resultado de alguem, que, não tendo o que fazer e tendo abundância de bichos de goiaba na cabeça, teve a “grande” idéia de inventar essa “maravilha”. Dizem que com o decorrer do tempo a gente se acostuma a tudo. Citam-se mesmo os exemplos do passado, quando o sistema de cabelos cortados “à la garçone” foi introduzido, em que mulher que cortasse o cabelo chegava a ser considerada “à tôa”.

De tudo isso, concluímos uma coisa: Dois pontos primordiais influem néssas variações da moda feminina. Um é o comércio franco, por vezes atrevido, de marmanjões que melhor fariam se ao invés de serem “modistas”, trabalhassem em picaretas, fábricas, comércio ou escritórios. Outro é a consequência diréta (e irrefutável) da vaidade feminina. Nêsse particular (perdoem-nos as leitoras) as mulheres são verdadeiramente ridículas e por vezes ignorantes. Tentam tudo o que for possível (e impossível, tambem), para se apresentarem mais belas, mais atraentes. Basta um “seu Abóbora” de París, Itália, Nova Iorque ou mesmo da Conchichina anunciar que um pedaço de tijolo amarrado num barbante e dependurado ao pescoço é “móda” e que um cronista social sofiscicado e “boa vida” confirme que é “very karr”, “shangai”, “chic”, etc e tal, para que o café soçaite feminino, em que pêse, ande por aí com pedaços de tijolos amarrados em barbante e dependurados aos finos e alvos pescocinhos.

Nêsse particular, nós, homens, temos que louvar a Natureza, que foi mais prodigiosa e exuberante para conosco, no que diz respeito à beleza física. A mulher se pinta, usa vestidos de multiformes tecidos, incontáveis coloridos, inenarráveis modêlos, de enfeites variados, diversos padrões, para parecer mais bonita.

O homem usa ternos mais ou menos idênticos, gravatas quase sempre iguais, corta o cabelo com poucas variações, usa ou não bigode(,) não “escarlateia” as unhas e é sempre o mesmo homem. A mulher de hoje é uma incógnita: A gente não sabe se a mulher que levanta cedo, sem escovar os dentes, sem pentear os cabelos, sem pinturas ou “maquillage”, sem sapatos altos, sem determinadas “pecinhas” que mostram por fóra o que não existe por dentro, se joias (algumas sem dentaduras) é aquela mesma “coisa louca” que foi vista na noite anterior na Avenida, no cinema, no Tenis ou na festa de aniversário!

Pestanas, sombrancelhas, lábios e mesmo olhos e nariz, regra geral, o homem apresenta com mais fortuna natural do que a mulher.

Os leitores já imaginaram se as mulheres, como os homens, usassem um só corte de cabelo, um só tipo de roupas, não se pintassem, não empregassem outros diversos estratagemas, cosméticos, massagens, etc., como não seriam diferentes?

Por isso, pensamos, justificam-se as constantes (e por vêzes absurdas) variações da móda feminina. Vestido curto, vestido comprido, “rabo de peixe”, “papo de perú”, decotado, não decotado, justo, folgado, cintura alta, cintura baixa, etc. & cia.. Recursos. Só recursos.

E, ao lado dos recursos (femininos), os recursos financeiros (masculinos), traduzidos numa profissão que deveria acabar e seus ocupantes barbados “agarrar um batente” de homens mesmo. No duro.

A “móda saco” vem aí. Se “péga”, não sabemos. Mas como existem tantas burrices escondidas debaixo de finíssimos e extravagantes penteados femininos, é possível que “pégue”. E é possível que nós próprios nos acostumemos ao fato.

Uma coisa é c(e)rta. É bom os homens principiarem já a preparar os bolsos. Sim, pois se as mulheres inovam modas, nós é que temos de abrir as carteiras...

Extraído do Correio de Marília de 22 de maio de 1958

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