sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ainda os Preços dos Medicamentos (14 de maio de 1958)

Temos nos insurgido, inúmeras vezes, através desta coluna, acêrca do absurdo que representa entre nós, a constante marcha elevatória dos preços das drogas farmacêuticas, sem nenhuma providência palpável das autoridades responsáveis.

Efetivamente, um dos maiores abusos contra a economia popular no Brasil (do grande rosário existente), traduz-se no assalto “motocontinuizado” dos laboratórios farmacêuticos nacionais e dos intermediários importadores dos produtos déssa natureza.

Tal acontecimento representa aquilo que se poderá chamar, sem medo de errar, em “caso de polícia”, porque o roubo, o assalto, é crime e como crime é combatido pela polícia.

Até a Câmara Municipal “entrou na dança”, aprovando um oportuno requerimento do sr. Hermógenes Santos, protestando veementemente contra tal estado de coisas, aparentemente injustificável.

Mas, como dissemos, o mal é de carater nacional – ou melhor, “nacionalizado”. Vejam os leitores, o teôr de um telegrama procedente de Pôrto Alegre e divulgado pela Agência Meridional:

“- O arcebispo metropolitano D. Vicente Scherer, em declarações à imprensa, teve oportunidade de se manifestar contra o absurdo dos preços atuais dos medicamentos industrializados.

- “Tive ensejo de verificar, por intermedio de elementos que me foram apresentados, o verdadeiro disparate dos preços atuais dos remedios” – disse, inicialmente, para continuar:

- “Esses preços, conforme se vê, são inteiramente desproporcionais às despesas de sua produção. São exagerados os lucros dos produtores. São mesmo desonestos” – ajuntou o ilustre prelado.

Depois de referir que os preços de alguns remedios, correspondem, não raro, ao salario de dois a três dias de um operario trabalhador, o arcebispo declarou:

- “Isso evidencia a manifestação do “capitalismo desalmado”, de que tive ensejo de falar no dia 1º de maio. Esses são fatos que causam a justa revolta das classes menos favorecidas da sociedade e que tem levado muitos, mercê de recursos que não dispõem, ao desespero e – por que não dizer? – tem feito que muitos demandem às fileiras comunistas e agitadoras”.

Finalizando, disse o arcebispo D. Vicente Scherer:

- “Há que se fazer algo. Os nossos governos não podem cruzar os braços e deixar que a situação caminhe para dias piores”.

Estamos com o arcebispo metropolitano de Pôrto Alegre. Pena que as autoridades constituidas não tenham ainda pensado sôbre o caso e tomado algumas providências a respeito déssa calamidade.

Extraído do Correio de Marília de 14 de maio de 1958

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