Um episódio de guerra (Natal de 1945)

(De um diário de campanha. Fato real ocorrido em 21 de novembro de 1944, na estrada 64, próximo às cidades de Marano e Volpara, na Itália)

José Padilla Bravos

Dois “jeeps” rasgavam a neblina boreal, dirigindo-se para a claridade do dia, obedientes aos pulsos firmes dos motoristas, brasileiros patriotas e saudosos, nutridos dos cumprimento do dever pátrio.

Uma brisa leve e vigorosa, enfeitava aquela atmosfera saborosamente fria e agradável até. A estrada dirigia-se com ímpeto sinuoso, desdobrando-se atravez da encosta daquela pitoresca moldura á tela de hábil pintor.

O ar apresentava-se sobrecarregado de ameno temperatura glacial, traspassando deliciosamente nossos pulmões compressos e asfixiades pelas agruras de guerra.

A estrada, em todo o seu percurso, deixava á mostra os incontáveis sulcos, originados das explosões causadas pelos morteiros alemães, que os carros enfrentavam com denoso, como se percebessem a importância que pairava sôbre seus tripulantes. Nem a lama fria que cobria com seu grosso tapete toda a via, nem a visibilidade turvada, eram motivos para barrar a marcha decisiva dos veículos.

Súbito, como um instante, cambiou-se o quadro: o panorama fausto e angelical, puro como a água cristalina, deu margem ao ambiente horrendo de guerra alucinada, num último lance de alcançar a Vitória, já pendente para o fiel do adversário. Uma saraivada de projéteis, largados pelos canos mortíferos dos canhões nazistas, plantam-se espalhados naquela parte da terra tão caprichosamente pincelada. Sucedem-se espoucares estraordinários e espetaculares. A morte abre sôbre o ambiente seu véu funesto, na ânsia de aumentar seu reino. Param compulsoriamente os carros e seus viajores se atiram no chão imundo, como azoinados e viciados, numa “chance” de salvação! Aumenta o tétrico movimento. Balouça-se no ar, a própria morte. Nem o costume de tão hediondas circunstâncias anula o terror das faces dos homens, embora muito o alivie.

Divaga-se o pensamento, variado e irresoluto, chega ao Brasil, á família, tornando aos céus, num lance de pensamento, implorando misericórdia...

As bombas caem, enfurecidas e incertas, explodem e com os milhares de estilhaços assassinos, atiram terra e devastam as plantas mais próximas. Assobiam anunciando sua chegada, como se nelas cavalgasse o próprio Satanás!

Os homens decidem-se: urge a partida. “Casa de Cristo” é o local almejado e os homens deslocam-se, como autômatos, confiantes em sí mesmos e no destino, para tomarem lugar nos veículos e seguir. Fazem-no, a mercê dos tiros da refreada artilharia “tedesca”...

Na marcha, agora mais moderada, em virtude de pior estrada, os “pracinhas” querem convencer suas próprias conciencias que o perigo passou. O motorista Maluche, extremamente “folgado” (excelente nas horas de dificuldades como esta), ri forçado, olha para o sargento Mendes e diz: “Nossa vida não está valendo nada...”

Nisso, o cabo Simões, piscando para o soldado Maluche replica: “É verdade, nossa vida não está valendo mais nada e eu não dou duzentos reis pela vida do cabo Padilla...” E eu, disse êste, não dou nem uma lira pelo cadaver do cabo Raposo.

Atalha novamente o Maluche, sem descuidar-se do volante e nem ligar às granadas que já diminuíam, numa gargalhada: “E vocês não veem que duzentos réis e uma lira é “los tesso”?

Nisso, no banco de traz do “jeep”, branco como um papel, explode o soldado Nacle: “Maluche, seja ou não “los tesso”, pisa nêsse acelerador”...

São Paulo, 14/12/1945.

(*) Sr. José Padilla Bravos, ex-componente da FEB e nosso distinto colaborador atualmente domiciliado na Paulicéia.

Extraído do Correio de Marília de 25 de dezembro de 1945

Comentários

Prezado Sr. Motorista Maluche, bom dia.
Foi muito bom receber sua ligação telefônica às 9h06 desta manhã fria de outono aqui por São Paulo, onde estamos para a festinha de dois anos da nossa querida netinha Beatriz.
Foi emocionante.
Muito bom saber que um (pelo menos um) dos Amigos do Cabo Padilla ainda está vivo. Vivo e vivendo em Brusque (SC).
Seu telefone, Sr. Maluche, provou que valeu a pena ter criado este blogue e blogar as crônicas do bravo Jornalista José Arnaldo.

Salve, salve... Motorista Maluche!

Que Deus o proteja. Sempre.

Cláudio Amaral
----- Original Message -----
From: Winiton Maluche
To: clamaral@uol.com.br
Sent: Wednesday, July 01, 2009 7:21 PM
Subject: Motorista Maluche


Motorista Maluche (do texto baixo), fui o próprio, o condutor do jeep 88 da FEB. Designado para o pelotão de transmissões do 3º do 6º RI. Hoje com 89 anos resido nesta cidade de Brusque no Vale do Itajaí MIrim.
Todos os "passageiros" em nossos deslocamentos eram radio-telegrafistas, inclusive eu, que era classificado como mensageiro. O cabo Raposo era rádio-técnico, sendo comandado pelo Sargento Mendes.
Depois que conseguimos uma máquina de escrever o Padilla "fundou" um jornal cujo nome não me recordo, mas que sempre trazia abaixo do título a seguinte frase: "O único Jornal Brasileiro não registrado no DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda)", da ditadura Vargas. Esperávamos sempre com ansiedade uma nova edição do jornal, com as novidades e comentários que demonstravam o talento jornalístico e literário do Padilla.

Um caloroso Abraço do sempre amigo do Cabo Padilla, Winiton Maluche (Motorista Maluche).
winiton@brturbo.com.br

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